A boca do lixo de Curitiba (+18)

(+18) Tirem as crianças da frente do monitor 😛

A Vegas é a menor de todas as boates da Cruz Machado. A entrada é ornada por estátuas que imitam o estilo grego. O tamanho do lugar é um pouco intimidante. Como parece ser regra, não demora um minuto até que se esteja acompanhado. Jasmine senta-se ao meu lado e, pela terceira e última vez na noite, ofereço uma bebida a uma garota de programa. Ela me adverte que a bebida para ela vai custar caro para mim, mas isso eu já sei. Pelo visto, os clientes não fazem isso habitualmente, a julgar por seu espanto.

Os cabelos bem cuidados, a saia curta o suficiente para deixar a calcinha visível, o top insinuante, tudo isso poderia chamar a atenção. Pouca coisa se destaca, porém, tanto quanto a aliança no anelar esquerdo. “Meu marido sabe”, diz.

Divina Comédia
Elas são Brunas, Luízas, Andressas e Cláudias. A primeira que encontro nesta noite chuvosa de sábado chama-se Suzana, mas – visto que poucas, bem poucas, adotam seu nome de batismo para a labuta – bem poderia se chamar Beatriz, nome da mulher que guiou Dante pelo Paraíso em A Divina Comédia. No entanto, esta é uma das tantas casas noturnas da rua Cruz Machado, a que muitos chamariam de, em uma linguagem mais alegórica, inferninho. Mas no Inferno e no Purgatório, Dante foi conduzido pelo poeta romano Virgílio, figura algo grave e, certamente, bem menos graciosa. O fato é que, à noite, esta rua, no centro de Curitiba, se transforma totalmente, da Visconde de Nacar à catedral – seus limites mais nítidos -, passando pelo comércio habitual, pela sinagoga, pela Casa Andrade Muricy, pelo cinema transformado em bingo e pelo indigno memorial à Belarmino e Gabriela.

Depois do entardecer, os referenciais da Cruz Machado passam a ser outros.

Suz

ana 
O primeiro desses referenciais é a Lidô (1). Mal sento, com um sorriso Suzana se oferece para ficar a meu lado. É educado pagar uma bebida à acompanhante, hábito pouco econômico, porém. Ela pede um desses espumantes que, no comércio, são relativamente baratos. A conta ficará em R$ 27, incluida a consumação obrigatória de R$ 5.

As bebidas ali e em qualquer casa do gênero têm um preço diferenciado por duas razões. Boa parte do lucro da boate está nelas e, por outro lado, a acompanhante ganha uma comissão. O garçom, incrédulo, pergunta-me se pode realmente trazer a bebida, demonstrando não ser comum que o cliente a ofereça e sim que a garota a peça.

Enquanto esperamos nossas bebidas, Suzana me explica o funcionamento da noite, sendo, por assim dizer, uma guia durante o restante da jornada ao fim da Cruz Machado, mesmo ausente a maior parte do percurso. Em nenhum momento me pede ou oferece nada. Diplomática e boa negociante, apenas me põe à vontade, ouvindo para saber o que eu quero exatamente.

Categorias
Enquanto uma das colegas de Suzana faz seu show, dançando e tirando a roupa, ela me explica que as garotas que trabalham com sexo podem ser divididas em quatro categorias principais.

As das saunas preferem o dia, não gostam nem de beber nem do ambiente das casas noturnas.

As das boates são mais sociáveis, gostam de conversar e cativar o cliente.

As que preferem a rua, em geral, não gostam do clima competitivo das casas noturnas, em que sobram mulheres e faltam homens dispostos a desembolsar entre R$ 80 a R$ 150, ou mais até, pelo programa e entre R$ 20 e R$ 50 por

 um quarto. Em geral, as de rua usam drogas, seja por medo seja por que não têm estrutura para o que precisam encarar.

As mulheres que trabalham por catálogo ou através de anúncios pela internet preferem desfrutar de um horário mais alternativo, menos fixo, sem trabalhar em nenhum lugar específico. Normalmente são universitárias. Ao fim do show, aplaudimos.

Universitária 
Com os R$ 5 mil que ganha em média mensalmente, Suzana paga o curso universitário, cria o filho, ajuda a mãe e investe no futuro. Sabe que não poderá viver da noite para sempre, mas ela é uma exceção.

Comprou um terreno em um bom bairro da cidade. A mãe lhe perguntou, brincando, para saber onde havia conseguido dinheiro para a compra:

– Você anda fazendo programa?.

Naturalmente, negou. De origem alemã, toda a família de Suzana é de Curitiba e a tirariam dali a tapa se soubessem.

– Se souberem que sou putinha me matam.

Certa vez, pouco antes de entrar no palco para sua performance, descobriu que um primo seu estava na platéia, na primeira fila. Através do garçom, pediu para a colega que acompanhava o moço não desgrudar dele, tomando completamente sua atenção. O sujeito não viu nada.

Marylin M

onroe
Ela também faz despedidas de solteiro. A mais marcante foi uma que fez para um pessoal de uma multinacional que funciona em Curitiba. Caracterizada como Marilyn Monroe, saiu do bolo e tudo.

É comum que grandes empresas celebrem o fechamento de negócios em boates, muito embora prefiram casas mais dispendiosas, como a Metrô ou outras ainda mais caras e reservadas. Suzana costuma trabalhar na Metrô, porém no sábado, ainda mais com chuva, o movimento lá fica fraco. Agora Suzana incrementou a carreira com um anúncio em jornal. Ela e o namorado gostaram do resultado. E ele chega a ganhar mais que ela, atendendo a casais.

Som de Cristal
Saindo dali, a próxima parada é o bar Som de Cristal. O ambiente é decadente. Bêbados e bêbadas. As mulheres não são sequer bonitas e os homens têm uma aparência ainda mais triste e suja. Dos poucos segundos que permaneço ali fica a impressão de haver uma parede chapiscada, sem acabamento, mas nem disso tenho certeza. Apenas ouvi, de um trio que entrava, duas mulheres e um homem, sobre como o lugar estava vazio. Era a chuva.

Minutos de atenções
Botecos suspeitos abrem suas portas durante toda a noite. Ali é possível comer um jesus-me-chama qualquer ou tomar uma cerveja a um preço honesto. Nas esquinas, exibe-se, para quem quiser ver, a imagem mais comum que vem à mente quando se fala a palavra prostituição: mulheres esperam quem queira pagar por sessenta minutos de atenções. Não se debruçam mais às janelas dos automóveis. Negociam à distância. Sinal dos tempos e do medo da violência.

O negócio dela é homem
Silvana, que trabalha na La Ronda, boate localizada um pouco mais à frente, prefere ir direto ao ponto. Como a primeira, de pronto, pede para sentar-se ao meu lado, mas toca e abraça o possível cliente sem cerimônia, com direito a cheiro no cangote e essas coisas todas. Depois de alguns minutos de papo, maior intimidade, ao ser perguntada sobre se faz programa com mulheres afirma categoricamente: “Meu negócio é homem”, diz, tocando o cliente, de surpresa, onde o homem é homem.

Mordidinha, só de leve
Ela vem de Santa Catarina, de uma pequena cidade perto de Tubarão. Garante que gosta do que faz, desde que o cliente seja educado e a trate bem. Mordidas e beliscões nem pensar. “Só mordidinha de leve, gostosa”, arremata, sedutora. Alguns clientes costumam usar drogas no quarto. “Pode usar, mas só se mantiver o controle”, conta. Uma vez, um começou a agredi-la, com muita vontade. Os garçons tiveram que arrombar a porta e salvar a moça.

Cheiro no cangote
Nem todas as mulheres fazem shows no palco das boates, mas não há dúvida de que as performances podem melhorar a sua arrecadação. Enquanto converso com Silvana, vejo uma mulher a fazer uma coreografia com velas e um visual meio vampiresco. Ela se pendura no teto de ponta cabeça, as pernas abertas voltadas para o público, expondo-se completamente, em uma posição difícil de descrever. Mais fácil seria fazer um desenho.

“Não faço show. Sou tímida”, diz Silvana pouco antes de, mais uma vez, dar um cheiro no cangote do cliente a fim de convencê-lo a fazer o programa. Fica bastante decepcionada ao deixar o peixe escapar. O peixe escapa.

“Até hoje ele é meio apaixonado”, diz enquanto alisa a aliança. “Mas está passando.” Carla explica que o clima caseiro acaba fazendo com que as pessoas confundam um pouco as emoções. Vou embora. Antes ela me faz jurar que não colocarei uma puta para dentro de casa.Conselhos
Certamente, Jasmine que encontro na Vegas, alguns passos adiante da La Ronda pensa na roupa que tem que lavar no dia seguinte e na chuva. Ela tem três filhos e as primeiras rugas surgem ao redor dos olhos, afinal ninguém passa por três gestações e pelos rigores da noite impunemente. Aconselha a evitar colocar uma mulher como ela dentro de casa. Certa vez, ela e o marido saíram com uma outra garota, depois de uma festa.

O gato virou pantera
Um dos restaurantes mais democráticos da cidade, o Gato Preto, mudou de nome. Agora é Pantera Negra. Continua a servir fartas refeições aos que, depois de uma noitada, querem se alimentar. Músicos, notívagos e profissionais da noite se revesam nas mesas durante a madrugada. Para além dele que, na verdade fica na Ermelino de Leão, temos algumas esquinas mais, ponto ou não de outras mulheres, uma boate gay e mais alguma calçada vazia e sem interesse aos solitários que buscam sexo.

As ruas que atravessam a Cruz Machado são como capilares que levam tudo o que ali acontece para as imediações, com motéis de segunda categoria e mais garotas de programa esparsas.

Fim de noite
A rua, com a chegada da luz, começa a se transformar mais uma vez. Na última quadra antes da Praça Tiradentes, uma padaria abre suas portas. O primeiro cliente pede um pingado e um pão com manteiga. Não se pode afirmar, com a certeza dos puros, se ele é um daqueles que, sem encontrar o que buscava sexo, amor ou apenas companhia, morreu solitário na Cruz.

Texto de 2007 surrupiado do excelente blog Cracatoa

Fotos: Circulando por Curitiba, MeLinka

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