Quando Bob Dylan virou samba

Éramos todos uns malucos, ainda que Sérgio Mercer fosse trabalhar muitas vezes de terno e gravata. Solda bebia e, fumando, já esperava. O hoje Procurador de Justiça, Dr. Francisco José Albuquerque de Siqueira Branco, atendia prosaicamente por Chico Branco.

Trabalhávamos na P.A.Z., agência de publicidade na esquina de Mateus Leme com Davi Carneiro, duas quadras abaixo da Praça do Gaúcho. Por ali perambulávamos, gazeando serviço, preparando o organismo para o início dos trabalhos alcoólicos, ao fim das tardes.

Pois foi em uma tarde daquelas que descobrimos, em frente ao cemitério, o antigo Bar América saindo de cena. Em seu lugar entrava o Rei do Siri, dirigido por um catarina que imaginamos boa praça, até porque era na praça que tratava de estabelecer seu boteco. O tal Catarina depois se revelou um mala, de tal forma que seu nome já foi esquecido no sexagésimo terceiro escaninho dos fatos inúteis. Ficou a lembrança da sua frase preferida, “Deixa pro beque”. Quem melhor nos tratava era uma moça de bons propósitos, a Lurdes.

Passamos a divulgar o Rei do Siri a bandeiras desbragadas – ou seriam as bandeiras despregadas e desbragados éramos nós? O fato é que, a cada noite, a mesa comandada por Sérgio Mercer aumentava de tamanho. Ele, Solda e Chico Branco haviam composto uma paródia deliciosa de Garufa, o Siri Tango, que era o hit, o must da noite na impagável interpretação do próprio Sérgio Mercer, com acompanhamento de seu bandoneón imaginário.
Até que a coisa excedeu. Na mesma mesa, certa quarta-feira, estavam pasmem todos – além de nosotros anfitriões – Jaime Lerner, Dalton Trevisan, Paulo Leminski e Alice Ruiz, Nireu Teixeira, Caio Soares, Dante Mendonça, Miran, Tataio Bettega, Rogério Dias, Miran, Dico e Raquel Kremer, Carlos Eduardo Zimmermann e duas figuras da vida carioca: o gaúcho José Monserrat Filho, jornalista e advogado, naquela época defendendo-se em uma agência de publicidade, e Pedro Galvão, paraense, diretor de criação da LM Propaganda. Ambos estavam em Curitiba para um evento de criação publicitária.
Não lembro como aquilo terminou. Sei que, dia seguinte, a cabeça repuxando para a Namíbia, garganta seca, estômago revirado, tivemos que encarar a hora do almoço para terminar uma campanha que tínhamos deixado para a última hora. Foi quando alguém lembrou que um dos presentes parecia não ter gostado da noitada. Havia até mesmo reclamado que não gostava de tango, preferia Bob Dylan. Ora, Bob Dylan em mesa de boteco? Pois é, assim saiu o Samba do Bob Dylan:

Encontrei o Bob Dylan
No Bar Rei do Siri
Comendo uma casquinha
Tomando Bacardi
Cheguei e perguntei
Alô, my boy, você aqui?
Yes, me respondeu
“Gente boa”, estou aí.
Pegou sua guitarra
E pôs-se a cantar
Like a Rolling Stone
Pirelli e Firestone
If Not For You
Gente boa eu vou chegar
Farewell, deixa pro beque
Amanhã I shall come back

No dia seguinte
O Bob apareceu
Com seu amigo Dico,
O Leminski e um judeu
Disse “Lurdes, venha cá”
Doze brahmas vou tomar
E a conta da patota
Você dá pro Monserrat
Raquel muito agitada
Previa confusão
Rogério deu no Dante
Tremendo bofetão
Bateu a dona justa
E levou Pedro Galvão
Que gritava Bob Dylan
Veja só que situação.

(breque)

Eu cheguei de avião
E vou voltar de camburão.

(Ernani Buchmann)

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